Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

Pulmão

Não sei o que esperavas, mas o que te espera é isto. O mundo do avesso, malha de medos, fúrias, tremores, frustrações, dias tormentosos, sedes incertas. Agora nada disso importa. Compõe-te. Chegas, sentas-te, olhas para longe e respiras fundo. Não sabes o que é esperado, mas esperam-te. Acaba com isto. Faz sinal e começa.

Olhos fechados, tudo fechado menos as mãos, dançantes, abertas. Abres-te com elas, voz, pele, olhos, corpo.

Não sabemos nunca o que esperar, mas não esperamos isto. O mundo em dobadoira, fios de fascínio, viagem, sussurro, alento, o abrigo da noite e um copo de vinho. Respira só, ser vivo.

Publicado por João David Almeida em 02:48:20 | Permalink | Comments Off

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Incenso

Havia apenas uma enorme esperança a rosar-lhe o rosto imberbe e uma estrela sigilosa que apontava caminhos. De todos, o jovem rei era o único capaz de levar outros consigo na coragem. Tanto por viver, e tanta sede de transformação, liberdade, pureza e contemplação.

Que fundamento tinha a viagem? A discussão foi acesa e deu lugar a um silêncio apaziguador. Gaspar ficou nele durante algum tempo, mas foi o primeiro a quebrá-lo:

“Vamos?”

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Terça-feira, Dezembro 22, 2009

Verbo diligente

Quando surge a primeira sílaba, existe aconchego e corpo adilado. Boca fechada. Súbita tempestade, a pressão aumenta. Uma massa de ar, à espera de arremesso, rasga uma pequena janela no rosto e liberta-se. A língua permeia em poucos instantes, subindo ao topo de um encosto abrigado de dentes, para cair novamente daquele reverso recortado, até ao ponto rés e húmido da sua morada.

A pequena janela abre-se agora em ampla voragem. O som torna-se claro, largo e generoso.

A língua ensaia um novo salto para o céu. Tudo o que consegue é aquele seu céu privativo onde brinca e inventa novas possibilidades. Um sibilo delicado de cometa marca e anuncia o final deste caminho. Os lábios voltam a estreitar a forma da janela (de onde se vê o rio todas as manhãs) até se unirem no aconchego inicial, beijo triunfal e solitário de um corpo criador.

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Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

ATFIM TRIREA HBEC!

Apetece voltar a baralhar aquelas três palavras e criar novas frases. Fundir a matéria e as ideias em sementeiras absoltas, porfias de mudança.

Cuidadosamente, voltamos a unir os três fragmentos do velho lema-grilhão, com um certo respeito pela monstruosidade que representa. Vencendo o peso do ferro e da História, devolvemos a frase ao seu lugar, repetindo o mesmo gesto atroz e repulsivo, desta feita para manter viva a memória e ganhar-lhe terreno. É mais pesado do que 40 quilos de ferro forjado, aquele trecho de tempo.

É isto, não é? Talvez seja. É esta a maneira certa de proceder? Conservar as marcas mais amargas do passado para evitar que ele nos surpreenda e se repita? Faz algum sentido.

Evitámos?

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Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

“Deve beber-se frio.”

Porque somos esta série aleatória de linhas e dos espaços entre elas, dirigimo-nos, a passo deslumbrado e temeroso, rumo a um repouso seguro de ruas em amplexo. À luz directa deste Sol entorpecido, revelam-se outros contornos do mesmo rosto. Para onde se dirigem estas linhas, espaços siderais abertos entre os espaços que vejo? Cabelos, nariz, lábios, ombros, Castelo, Tejo, sina? Sopro laminar e breve, um minúsculo vestígio de Sol matinal atreve-se a sobreviver à inércia devastadora do zénite para nos lembrar a urgência terna deste pedaço de tarde.

Publicado por João David Almeida em 18:56:39 | Permalink | Comments Off

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

” - ff “

Absolutamente virgem, desponta a lembrança daquele silêncio. Nunca esta imagem tinha percorrido outras horas que não as do seu próprio tempo. Era o silêncio mais profundo e inteiro de sempre, vácuo a céu aberto, esmagado pelos 34º C  que o sol desafogava sobre a tarde - sem antes nem depois, nem vento a fazer cantar a gigantesca planície.

O alcance refundidor, imanente e visceral desta descoberta levaria a crer que ela assaltasse muitos mais momentos, para ilustrá-los e dar-lhes sentido. Mas as memórias, sempre que a elas regressamos - procurando anticorpos para o hoje - são também contaminadas por ele. Esta memória soube resguardar-se, até ressurgir, retinta e plácida, quando já quase não havia rasto que conduzisse até si.

A estrada entre Llerena e Fuente del Arco ardia ao longe em febre dos dias. No caminho para a Sierra Norte havia um jorro de seara. Nada mais além da planície e das ruinas do teatro. O maior silêncio que é possível encontrar, saiu à rua esta noite sem paredes nem tecto. Este pedaço casto e lacónico de silêncio e dos seus lugares foi, hoje, invadido por uma plácida bola de sabão.

Publicado por João David Almeida em 02:54:11 | Permalink | Comments Off

Segunda-feira, Dezembro 7, 2009

Parte disto

Sonhei que chegavas, ofegante e náufrago, ainda enleado na capa das nossas virtudes. Levantava-me para te abraçar, porque te quero assim mesmo, frágil, cheio de incertezas e máculas. [ E mais me compele a tanto querer-te o tanto que te devo pelo acaso que sou. ] Lá fora já não chovia. Conhecíamos aquele ruído: era só água que ainda brincava nos carris do eléctrico. Cá dentro estávamos já todos à tua espera, dispostos em tragos cúmplices, como vórtices em repouso. [ Espera, está quase. Vá, tira essa capa e atira-a ao chão. Esquece as virtudes e começa de novo. Se gritares a palavra "GRITO", sabes o que acontece? É o universo todo que implode, que se cogumeliza, crava e ressemeia. Experimenta! É engraçado. ]

No meu sonho tu gritavas. As virtudes voavam. A água tinha sabores novos e corria então em direcções que os carris não ditavam. Pedaços de um corpo tentacular e odisseico, rodopiávamos até cair novamente na erva rociada da nossa solidão, matilha exausta e saciada. Sonhei que acordava e que outros chegavam depois de ti. Sonhei que não sonhava nunca. Como disse, outros chegavam e tudo isto se repetia num caos lento e organizado de muitos tempos dispersos. [ Assim, devagar, conseguimos: a melhor organização de todos os tempos. ]

Publicado por João David Almeida em 01:59:05 | Permalink | Comments Off

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Matriosca de vazios

Esta manhã, a palavra “FILOSOFIA” está pousada no frasco do champô. Assim, maiúscula e gorda, cheia de nadas. Provavelmente andou a morder durante a noite. O champô está já a acabar. Acabo com ele e com a palavra. O frasco, deito-o fora, para que se recicle.

Publicado por João David Almeida em 10:23:26 | Permalink | Comments Off

Sábado, Novembro 21, 2009

Bênção

Surge, antes de mais, o som do choro de uma criança, e acompanha a entrada da bateria que precede o arranque da introdução do tema. Stevie Wonder está, com este gesto, a dizer “Ouves? Isto, que te faz sentir por vezes algum constrangimento ou transtorno e deita por terra tantos momentos de silêncio, tranquilidade ou dramatismo, essa perturbação é para mim a felicidade mais profunda. Aisha chora, e assim eu fico nesta coisa de a sentir perto. Consegues ouvir isto? Consegues amar isto?”

Publicado por João David Almeida em 05:40:05 | Permalink | Comments Off

Terça-feira, Novembro 3, 2009

Inferida

Que personagem és do meu passado? Aperto os nós aos dedos da lembrança e o nó da bruma alando as copas nuas. Que pesou mais na vez em que o pecado - sã perda de horas, medos, grãos de esperança - foi noite, suma lenta de outras luas? Quebrou-se a vagem-égide e eu, cessado, ao pé do nosso adeus desfeito em dança, renovo a prumo as luminosas ruas. Que personagem eras do passado? Só ser de um nome é rigidez que cansa. Mas noutro, espuma e lã, não continuas.

Publicado por João David Almeida em 03:34:34 | Permalink | Comments Off