Quinta-feira, Maio 3, 2012

Frenética figura

Pára com essa dança inconsequente. O que é isso que estás a fazer? Não digas nada. Pára e pensa no motivo por que o fazes. Tudo o que vejo é um conjunto de indivíduos em histeria, a tentar disfarçar uma deprimente necessidade de silêncio. E a criar no meio disso mais ruído. Agitando-se coordenadamente, ao som da mesma canção. Ensaiados, mutilados. Pára com isso e olha à tua volta.

Entende que nada do que imaginas nasce do teu gesto. Apenas uma farsa que esconde ser outro o gesto consequente. Roubaram-lhe o nome e deram-lhe outra face. Porque podia ser perigoso. Porque é uma arma poderosa. Porque podias usá-lo para desenhar as órbitas girassolares do teu planeta.

Não, não deixaram que isso acontecesse. Não deixariam. E aí segues tu para a próxima grande causa. Qual é a marca? Aparentemente a tua. Nenhuma marca naquilo que fica por dentro das horas a passar. Vestes a camisola e vais para a flash-mob. E quase esqueces que acordas sem camisola todas as manhãs.

Publicado por João David Almeida em 01:35:46 | Link | Comentários Desligados

Cinzento-Java

Que noites se revolveram em dia? Quantos dias são agora feitos desses ecos? Quantos oceanos volvidos sobre as ilhas, quantas partidas terão transformado aquele resto der ser naquilo que parece? Lâmina a lâmina, aquele homem percute um desprezo símio pelo presente. Não é música aquilo que a apatia tóxica ainda lhe permite escutar, quase catatónico. Não é esta música. É uma viagem de malas feitas para as rotas do indico, em voo por cima das águas, essas tais, turbulentas, às vezes, inebriantes quase sempre. Mas por cima, para chegar ao aconchego primeiro de outras melodias. Algo se passou naquelas ilhas, que habitam agora um retrato frágil e distante de outro que não és.

Descansa agora, sobra viajante, e fica neste voo até adormecer.

Publicado por João David Almeida em 01:03:22 | Link | Comentários Desligados

Segunda-feira, Abril 30, 2012

Darwinismo de prateleira

Três lódãos-bastardo da Rua Rosa Araújo saíram no seu passo lento e pretensioso. Foram ao barbeiro. Ao sentar-se, ouviram o homem, de estatura baixa e andar claudicante, fazer a pergunta do costume:

— Barba ou cabelo?

As árvores suspiraram com majestoso desprazer, antes de responderem, resignadas:

— Ramos.

Publicado por João David Almeida em 19:05:40 | Link | Comentários Desligados

Domingo, Abril 1, 2012

Movimento paralelo

Olhei à minha volta e o país estava vazio. O medo e o cansaço tinham inundado de ecos as esquinas e as janelas. A noite chegava, anunciando-se inquieta e penosa. Estaria preparado para ela. Mas não para o que se passou. Refeito, acordei para um amanhecer cheio de promessa. Quando esse outro dia terminou, ele tinha já ganho a forma e a direcção dos pés que o habitaram, peregrinos como os meus. E fizera seu o nome deles também. Por outras palavras, às vezes fecho os olhos e apenas caminho ao seu lado.

Publicado por João David Almeida em 03:28:44 | Link | Comentários Desligados

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

Tríptico

As mãos. As mãos. As mãos.

Publicado por João David Almeida em 15:11:13 | Link | Comentários Desligados

Domingo, Fevereiro 26, 2012

Lixo espacial

O mesmo pano que estanca a hemorragia, é o primeiro a guardar as marcas da ferida. Assim é este lugar, carregando despojos que fui alojando na baía, mesmo aqueles que não lhe pertenciam. Mantêm-se nesta vertente sul, perto de casa, mas suficientemente afastados das rotas essenciais. Cada dia em que os meus passos se encarregam de me trazer aqui, é um dia que me é dado para libertar este território de algum do peso que lhe fui entregando, ao longo de… já décadas.

Os pastéis de nata do Tomé saem em fornadas quentes mesmo depois da meia noite. Já não me lembrava.

Liberto e cresço. Mas terminar este trabalho leva tempo. Talvez precise de regressar a ele várias vezes assim como agora, pela tua mão. Assim mesmo. Importas-te?

Publicado por João David Almeida em 22:01:36 | Link | Comentários Desligados

Terça-feira, Fevereiro 21, 2012

Incógnito

Cheguei como um pedaço de madeira náufrago. E agora o que fazemos? Pegaste-me pela mão, levaste-me, olhos e ouvidos atrás dos teus dedos, inquebráveis de tão humanos na guitarra. Inventaste as estradas que faltavam para fora da concha, feriste-me onde fazia falta e guiaste, guiaste, guiaste. Respirámos juntos as mesmas frases, dançámos e rezámos às transcendências todas que há. Reinventámos, ali mesmo, naquelas quatro paredes enfeitadas de Castelo, fortalezas para o medo. Entreguei-me a este ritual tanto tempo, tantas tardes, tantas horas, que é impossível não sentir hoje a marca desse encontro. Sinto-o agora, ao ouvir-me em tudo o que faço. Sinto-o tão nitidamente quando te oiço tocar.

Incógnito. Foi assim que agiste sempre. Penso que até hoje ninguém conhece ainda verdadeiramente este segredo, tão transparente no desenho dos meus passos. Porque estavas perto mas não na minha frente. Em segredo, trataste de me levar até aqui, para que seguisse transformado.

Publicado por João David Almeida em 12:40:13 | Link | Comentários Desligados

Quinta-feira, Fevereiro 9, 2012

“Le figliuole”

Deserto habitado, como anti-matéria a sugar a planície, o mosteiro curvava-se, esmagadoramente belo e infinitamente nu, sobre a memória das mesmas mulheres que nele procuraram ao mesmo tempo refúgio e caminho. Seiscentos anos bastaram para perceber que essa congregação última esbarrava na fronteira do real, mas também para que o edifício se ataviasse ainda hoje em vibrações de busca, propagadas em ondas concêntricas. Sempiternas, pois claro, a enformar cada espaço arruinado e vazio.

- “Está frio, não está?”

Procuro sair pausadamente, levando algumas debaixo do casaco, sem que ninguém dê por nada.

Publicado por João David Almeida em 03:01:47 | Link | Comentários Desligados

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Terça ao meio dia e meia

Uma hora livre e o sol a convidar: não havia nenhuma razão para não dar um salto à esplanada. Nadou para terra, sentou-se e pediu um fino. Não sabia muito bem como tinha ido ali parar, nem o caminho de volta, mas Dinis sentia-se bem naquele lugar, como se aquela terra pudesse ser sua também. «Podia habituar-me a isto.», pensou, sem que tivessem trazido ainda o seu pedido.

Subitamente, o tumulto que despontou por trás de si alvoroçou o calor pachorrento da manhã que findava. Toda a esplanada era agora percorrida por gritos de pânico e correrias histéricas. Levantou-se como pôde, estremecido por aquele bulício. Ainda tentou, sem sucesso, inqurir a empregada acerca do tempo que tinha passado e do seu fino que não viera. Nada a fazer.

Resignado, Dinis regressou à praia e mergulhou de novo no mar.

Publicado por João David Almeida em 01:18:53 | Link | Comentários Desligados

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

“Brilhozinho”

Aprendi esta coisa de dar nome às sensações: “leve embaraço inicial ao ficar a sós com a verdade”. Hoje puseste-me a sós com a tua. Mas o embaraço que conhecia, não encontrei. Encontrei um peito aberto e olhos que flutuam por cima dos medos. Às vezes submergimos, como um mergulho na praia.

Repara nisto. O peito é meu e os olhos são teus. Aperto-te a mão tremeluzente para te ver, assim mesmo, à procura de um esqueleto para os dias. Hoje apanhei-te desprevenido. Tu apanhaste-me a mim também. E por isso merecemos este espaço e esta verdade. E por isso não estou grato por ela, como a árvore não tem gratidão para dar à terra ou ao seu cuidador. Tem ramos abertos, sombra e fruto.

Publicado por João David Almeida em 00:45:11 | Link | Comentários Desligados