Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Terça ao meio dia e meia

Uma hora livre e o sol a convidar: não havia nenhuma razão para não dar um salto à esplanada. Nadou para terra, sentou-se e pediu um fino. Não sabia muito bem como tinha ido ali parar, nem o caminho de volta, mas Dinis sentia-se bem naquele lugar, como se aquela terra pudesse ser sua também. «Podia habituar-me a isto.», pensou, sem que tivessem trazido ainda o seu pedido.

Subitamente, o tumulto que despontou por trás de si alvoroçou o calor pachorrento da manhã que findava. Toda a esplanada era agora percorrida por gritos de pânico e correrias histéricas. Levantou-se como pôde, estremecido por aquele bulício. Ainda tentou, sem sucesso, inqurir a empregada acerca do tempo que tinha passado e do seu fino que não viera. Nada a fazer.

Resignado, Dinis regressou à praia e mergulhou de novo no mar.

Publicado por João David Almeida em 01:18:53 | Link | Comentários Desligados

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

“Brilhozinho”

Aprendi esta coisa de dar nome às sensações: “leve embaraço inicial ao ficar a sós com a verdade”. Hoje puseste-me a sós com a tua. Mas o embaraço que conhecia, não encontrei. Encontrei um peito aberto e olhos que flutuam por cima dos medos. Às vezes submergimos, como um mergulho na praia.

Repara nisto. O peito é meu e os olhos são teus. Aperto-te a mão tremeluzente para te ver, assim mesmo, à procura de um esqueleto para os dias. Hoje apanhei-te desprevenido. Tu apanhaste-me a mim também. E por isso merecemos este espaço e esta verdade. E por isso não estou grato por ela, como a árvore não tem gratidão para dar à terra ou ao seu cuidador. Tem ramos abertos, sombra e fruto.

Publicado por João David Almeida em 00:45:11 | Link | Comentários Desligados

Sexta-feira, Janeiro 6, 2012

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Publicado por João David Almeida em 20:26:59 | Link | Comentários Desligados

Quarta-feira, Janeiro 4, 2012

Havia retorno

Havia água no planeta. Sabia-o porque um remate de arrebol a fizera confluir toda, gota a gota, para a estação de Deventer. Sentei-me e esperei pelo próximo comboio. Não, o seguinte. A luz, que electrizava e mentia tom por tom, iluminava a realidade dos rostos.

O fim de tarde não tinha caminho, nem comboio, nem respostas, nem adjectivos. Mas tinha eu sensações gravadas na pele, que a torrente poupava. Naquela planície jorrava, sem saber, o estuário das minhas memórias, a verter-me os despojos em pontos com retorno.

Publicado por João David Almeida em 17:55:46 | Link | Comentários Desligados

Domingo, Janeiro 1, 2012

Revoejo confiado

Foi a noite mais longa do ano. Ou terão sido várias noites?

Sei que a terra inventou a dança exacta e cheia para gerar dádiva e frémito e trópico no meu peito. Sob a eloquência luminar de tantos céus de Dezembro, abriguei sabiamente o reencontro das minhas raízes, desembrulhei a certeza das células, partilhei o riso das colinas e dos abraços, virei o solstício no tropel celebrado dos teus lábios, canção infinita.

Sei que hoje, arremessado na fulminância desta funda feita de fráguas e firmamentos, levanto-me, visto-me e enveredo-me. Desejo e persigo o azimute desenhado no aconchego peregrino destas asas, pássaro de fogo que és viagem e regresso a anunciar a manhã em cada sorriso.

Foram várias, muitas noites, para todas as manhãs.

Publicado por João David Almeida em 17:43:43 | Link | Comentários Desligados

Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Libertango

Querer o que não se quer, suar para nada, e tantas horas mortificadas. Por vezes, tão pouca atenção àquele chamamento. Absentismo e vazio. Paro.

Os dedos pedem, os olhos abrem, a canção é. Bem-vinda sejas.

Publicado por João David Almeida em 11:40:05 | Link | Comentários Desligados

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Transposto

À meia noite em ponto, o camião do lixo está, como é hábito, a fazer das suas no início da Rua do Forno do Tijolo. Tudo parado. Gaita.

Faço marcha atrás, regresso à Rua de Angola e subo-a para entrar na Rua de Moçambique, que percorro até ao cruzamento. Corto à esquerda e retomo o meu caminho para a Graça, desta feita uns metros mais à frente. Olho para trás. O camião continua lá. Sorrio.

Publicado por João David Almeida em 15:54:38 | Link | Comentários Desligados

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

Gota e gérmen

Ambos os pés cravados na terra, a semente sorri saciada.

Publicado por João David Almeida em 13:16:19 | Link | Comentários Desligados

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

Placenta

Anos depois, a chuva caía no mesmo lugar. E as ruas cantavam luz, como artérias de promessa. Passo após passo no chão molhado, gargalhadas e abraços fazem perder o rumo. Saboreamos juntos esta deriva.

Ventos depois, os corações ficaram no mesmo lugar, a fazer vibrar o mundo e as mentes em encontros deserrados. Fechamos a lonjura num frasco de perfume. Continuamos a caminhar.

Léguas depois, devolvo-me ao lugar dos meus sentidos, sempre mais despertos e desamarrados do que antes, tão libertos para as ruas e para as mentes. Dançamos nesta linha, que é tona para um peito que flutua.

Publicado por João David Almeida em 02:19:11 | Link | Comentários Desligados

Terça-feira, Dezembro 6, 2011

Guadalquivir

Traziam presença cheia, ar generoso e cansado de viagens tantas. Impossível não dar pela sua chegada. Trocaram sorrisos e abraços, fizeram de Alfama toda uma festa desabrida de poros peninsulares.

Viajo eu também, roubando devagar, a cada alçapua, um passo a sudeste.

Naquela noite, traziam corpos em nuvem desenhada e choros de “soleá” nas mãos, aconchegantes e abertas para reandaluzir-me o espírito.

Publicado por João David Almeida em 03:16:01 | Link | Comentários Desligados